“Quanto vale ou é por quilo?” de Sérgio Bianchi
Lançamento: 2005 (Brasil)
Direção: Sérgio Bianchi
Atores: Hérson Capri, Caco Ciocler, Lázaro Ramos, Ana Carbatti, Cláudia Mello, Myriam Pires, Leona Cavalli...
Duração: 104 min
Gênero: Drama
Sinopse
Uma analogia entre o antigo comércio de escravos e a atual exploração da miséria pelo marketing social, que forma uma solidariedade de fachada. No século XVII um capitão-do-mato captura uma escrava fugitiva, que está grávida. Após entregá-la ao seu dono e receber sua recompensa, a escrava aborta o filho que espera. Nos dias atuais uma ONG implanta o projeto Informática na Periferia em uma comunidade carente. Arminda, que trabalha no projeto, descobre que os computadores comprados foram superfaturados e, por causa disto, precisa agora ser eliminada. Candinho, um jovem desempregado cuja esposa está grávida, torna-se matador de aluguel para conseguir dinheiro para sobreviver.
Crítica
Seguindo a linha de "Cronicamente Inviável" (2000), Sérgio Bianchi desenvolve em "Quanto vale ou é por quilo?" uma crítica ácida e contundente, que traz à tona elementos cruciais da sociedade brasileira, revelando princípios e contradições implícitos nas mais diversas práticas cotidianas. Desta vez o grande alvo são as organizações do “terceiro setor”.
Através de uma analogia com a sociedade escravista do século XVIII, fundamentada no conto "Pai contra Mãe", de Machado de Assis, e em documentos do Arquivo Nacional, Bianchi questiona os valores, apresentados nos clichês do marketing social, buscando revelar a lógica essencialmente mercadológica da atuação de entidades assistencialistas que, a partir da bandeira da solidariedade e da responsabilidade social, constituem um modismo extremamente funcional ao circuito de acumulação capitalista.
Esse tema é abordado na obra através da atuação da Stiner Empreendimentos Assistenciais, dirigida por Marco Aurélio (Hérson Capri) e Ricardo Pedrosa (Caco Ciocler). Trata-se de uma empresa especializada em investimentos sociais que, entre outros, desenvolve um projeto de “Inclusão Digital” em regiões periféricas. No decorrer da trama fica evidente que concorrência na captação de recursos impõe às organizações assistenciais uma prática cada vez mais pragmática que, longe de se contrapor, reforça os princípios excludentes do mercado. No cenário construído por Bianchi, o desdobramento da atuação da Stiner é a formação de um esquema de superfaturamento na compra de computadores que atenderiam determinada comunidade carente. Neste momento, destaca-se Arminda, que decide denunciar os desvios de verbas públicas da empresa.
No conto "Pai contra Mãe", de Machado de Assis, uma escrava grávida fugitiva é capturada pelo capitão do mato Candinho, que recebe uma recompensa que o possibilita criar seu filho com “dignidade e liberdade”. Já na adaptação realizada por Bianchi, Candinho é um jovem recém-casado – cuja mulher está grávida – que, devido ao fato de estar desempregado, se coloca na condição de matador de aluguel. Entre as suas tarefas está uma colocada por Ricardo Pedrosa: matar Arminda, que começa a ameaçar com suas denúncias. A partir desta situação são apresentadas duas possibilidades de desfecho. Na primeira, Candinho mata Arminda e recebe a recompensa para criar seu filho com “dignidade e liberdade”, assim como no conto de Machado de Assis. Na segunda, Arminda convence Candinho a conseguir dinheiro de outra forma: se voltando contra os próprios líderes da Stiner e fazendo justiça contra os “ladrões de dinheiro público”.
A análise de "Quanto vale ou é por quilo?" pode parecer, à primeira vista, algo em grande medida desnecessário, já que se trata de um filme bastante direto e claro com relação aos seus propósitos. Porém, a partir da crítica ferrenha apresentada pelo roteiro do filme, pode-se abstrair elementos subjacentes ao “terceiro setor”, que vão muito além dos elementos explicitados na trama.
Apesar de não fazer referência a esta problemática, o filme possibilita o questionamento do próprio termo “terceiro setor”. Como identificar como um setor à parte um conjunto de organizações que não tem autonomia alguma em relação ao mercado e ao Estado, pois funcionam dentro dos limites do primeiro e dependem essencialmente de financiamentos do segundo?
Além disso, a crítica aos projetos sociais desenvolvidos por ONGs e empresas socialmente responsáveis pode ir muito além da afirmação da possibilidade de existência de corrupção no seu interior. A eficácia quase nula de um projeto de “inclusão digital” em favelas sem condições básicas de infraestrutura revela limites cruciais das organizações do “terceiro setor”. Ações focalizadas, direcionadas a “clientelas” específicas, possuem efeito bastante restrito em uma sociedade de desigualdades tão profundas como a nossa. Além disso, constituem fatores de grande funcionalidade à desresponsabilização do Estado frente à questão social, em tempos de ascensão do neoliberalismo. Gradativamente, a noção de indivíduo portador de direitos universais dá lugar à ideia de cliente receptor/consumidor de serviços sociais, plenamente de acordo com os moldes e imperativos do mercado. Nesse sentido, a analogia, estabelecida por Bianchi, com o período da escravidão tem o objetivo de mostrar que valores como dignidade, solidariedade e justiça social podem variar e ser facilmente apropriados em função do lucro.
Por isso, pode-se dizer que, apesar do risco de cair em anacronismos ao comparar épocas tão distintas, a proposta de Bianchi tem a positividade de estimular e instigar a reflexão acerca de um fenômeno tratado comumente de forma exaltativa e acrítica em nossa sociedade, como é o caso do “terceiro setor”. Ao que parece, Bianchi busca, através de situações extremas, chocar e constranger o expectador, mostrando contextos em que a solidariedade vira moeda de troca, esvaziando-se e se transformando em engrenagem de reprodução dos interesses dominantes.
Marcilio Rodrigues Lucas
Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uberlândia
Estudante de História da Universidade Federal de Uberlândia (8º período em 2006)
Bacharel em Ciências Sociais pela Universidade Federal de Uberlândia
Estudante de História da Universidade Federal de Uberlândia (8º período em 2006)
www.telacritica.org/QuantoVale_revista03.htm em 06/12/2011
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